Santa Maria Francisca das Cinco Chagas

Terceira franciscana, devotíssima do sublime mistério da Trindade Santíssima, viveu em constante agonia em união com a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Plinio Maria Solimeo

Vamos apresentar neste mês a vida de uma santa que, apesar de grande mística e com especial fama de milagrosa, é pouco conhecida no Brasil. Trata-se de Santa Maria Francisca, canonizada pelo bem-aventurado Pio IX em 1867. Com vocação extraordinária para o sofrimento, enfrentou perseguições dos homens e dos demônios, recebeu os estigmas de Cristo e participava de sua Paixão. É uma santa para ser venerada, embora não possa habitualmente ser imitada, a não ser por quem for chamado a vocação semelhante.

Exporemos aqui alguns aspectos de sua santidade, acessíveis à compreensão de todos os cristãos.

Convívio com o anjo da guarda

Casa onde nasceu Santa Francisca

Ana-Maria Rosa Nicoleta nasceu no dia da Anunciação, 25 de março de 1715, em Nápoles, filha de Francisco Gallo e de Bárbara Barisina, ambos de condição modesta. Aos quatro anos pediu à mãe que a levasse à igreja para participar do Santo Sacrifício da Missa. Obteve também, nessa idade, o privilégio de poder confessar-se — mesmo sendo um anjo de pureza — embora tivesse que esperar até os sete anos para fazer a Primeira Comunhão. Depois disso, sua surpreendente maturidade levou o confessor a permitir-lhe comungar diariamente, privilégio muito raro na época. Ana-Maria era instruída por seu próprio anjo da guarda, que lhe aparecia visivelmente.

Quando chegou à adolescência, o pai colocou-a em sua pequena fábrica de passamanaria, onde já trabalhavam sua mãe e suas irmãs. Ana-Maria soube conciliar o trabalho com a vida de piedade. Auxiliada pelo seu bom anjo, este fazia parte da tarefa que lhe era destinada, para que ela destinasse mais tempo à oração.

Sobre as relações de Ana-Maria com seu anjo da guarda, diz um hagiógrafo: “Ela tinha uma terna devoção pelo anjo tutelar, e se esforçava de a inspirar aos outros. A presença quase contínua, e as frequentes conversações desse espírito celeste obtinham-lhe grande força e viva alegria. Era ele, dizia a santa, que tomava sua defesa contra as investidas e assaltos de seu pai, e suas preces obtinham-lhe do alto os preciosos e inumeráveis socorros de que tinha necessidade. À sua escola e por suas lições, ela aprendeu a discernir as verdadeiras aparições das falsas, e a se manter em guarda contra as ilusões do demônio. O anjo dava-lhe, como regra desse discernimento, o saudá-las sempre, quando se apresentavam a ela, com os santos nomes de Jesus e de Maria, assegurando-lhe que encontraria nesses nomes a luz para seu espírito, a força para seu coração, e um refúgio seguro contra toda potência inimiga”.1

As mencionadas investidas de seu pai visavam incliná-la a viver como todas as outras donzelas de sua idade, em vez de permanecer em contínua oração, e a desistir de seu desejo de tornar-se religiosa.

Entrega-se inteiramente a Deus

Luvas que ocultavam os estigmas da santa

Quando completou 16 anos, seu pai quis casá-la com um rico cavalheiro, que lhe pedira a mão. Mas ela recusou-se, dizendo-lhe: “Meu pai, não posso fazer a sua vontade, porque estou resolvida a deixar o mundo e a tomar o hábito religioso na Ordem Terceira de São Francisco, para o que desde já lhe peço autorização”.2 Essa determinação foi um rude golpe para o avarento pai, que julgava tal união ocasião de melhora da situação econômica da família. Por isso empregou todos os meios para convencer a filha a ceder, inclusive agressão física. Trancou-a depois, por vários dias, em um quarto da casa, não lhe fornecendo senão pão e água para alimentar-se. Finalmente, a intervenção de um religioso muito respeitável levou Francisco a conceder a autorização pedida.

Ana-Maria foi admitida na Ordem Terceira de São Francisco, na reforma de São Pedro de Alcântara, em 1731, escolhendo os nomes de Maria, por devoção a Nossa Senhora, Francisca, por devoção a São Francisco, e das Cinco Chagas, por devoção à sagrada Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

As terceiras franciscanas viviam no mundo, embora observando uma regra que estipulava jejuns, penitências, disciplinas e as orações diárias da Ordem. Reuniam-se na igreja algumas vezes por dia para a oração comum.

Devotíssima da Paixão de Cristo, Santa Maria Francisca fazia diariamente o exercício da Via-Sacra, percorrendo as várias estações na igreja paroquial. Era tanta a dor e o sentimento com que rezava esse pio exercício, que algumas vezes desmaiava entre uma estação e outra.

Tendo sua mãe falecido, o pai, desejoso de casar-se novamente, quis pôr sobre seus ombros o sustento e o cuidado da família, que constava então de quatro pessoas para alimentar e vestir. Com dificuldade, a santa livrou-se desse encargo, alegando sua má saúde. No entanto o avarento pai passou a cobrar-lhe o aluguel do pequeno cômodo que ocupava na casa, sendo ela obrigada a recorrer a seus benfeitores para pagá-lo e assim atender a sua família.

Em 1763 Santa Maria Francisca conheceu, por revelação divina, que o reino de Nápoles seria desolado por uma grande fome seguida por terrível epidemia. Ela mesma foi atingida pela enfermidade chegando às portas da morte, tendo recebido os últimos Sacramentos.

Grandes devoções de Santa Maria Francisca

Aspecto atual do quarto onde dormia Santa Francisca. Nele se encontram suas relíquias e uma imagem.

Uma das grandes devoções de Maria Francisca era o sublime mistério da Santíssima Trindade. Ela exclamava: “Ó! que eu não possa morrer, que eu não possa dar minha vida como testemunho de minha fé a esse grande mistério da Santíssima Trindade! Que eu não possa, ao preço de meu sangue, torná-lo conhecido e adorado por todos os homens!”. A adoração da Santíssima Trindade era o primeiro e o último ato de seu dia. Quando alguém queria discutir com ela esse ou outro mistério de nossa fé, respondia: “Não é permitido a um vil verme da terra querer perscrutar e compreender os mistérios mais sagrados da sabedoria divina, sem uma presunção temerária; muitos caíram na incredulidade e se perderam para sempre por querer discutir esses mistérios”.3

Sua devoção a Nosso Senhor padecente não tinha limites. Santa Maria Francisca consagrava todas as sextas-feiras do ano à meditação da Paixão. Teve o privilégio de receber os sacrossantos estigmas de Nosso Senhor Jesus Cristo e participar de seus sofrimentos durante a Paixão, pela salvação dos pecadores. Ela sentia em seu corpo os padecimentos de Cristo em sua dolorosa Paixão especialmente nas sextas-feiras da Quaresma.4

Maria Francisca possuía uma confiança tão viva e um amor tão ardente à Santíssima Virgem, que nunca rezava sem ter a Ela recorrido. E inculcava essa devoção nos outros: “Sede verdadeiramente devotos de Maria; recomendai-vos a Ela e obtereis de Deus todas as graças que desejais”.5 As invocações de Nossa Senhora eram tão frutuosas para ela, que meditava sobre cada uma para tirar delas todo o proveito. Preparava-se para as festas da Santíssima Virgem com orações, jejuns e mortificações, rezando diariamente em sua honra o Rosário e a Ladainha Lauretana.

Sua devoção estendia-se também aos santos anjos. Preparava-se do mesmo modo para suas festas, que celebrava com todo fervor. Como estava sempre enferma, Nosso Senhor encomendou-a ao arcanjo São Rafael, que a socorreu e curou várias vezes. Ela amava também ternamente São Miguel, seu defensor contra os ataques do demônio, e São Gabriel, o anjo da Anunciação.

Santa Maria Francisca não se esquecia também das almas que sofrem no Purgatório. Praticamente todas as esmolas que recebia empregava-as em mandar rezar Missas pelas santas almas. Procurava também ganhar em seu favor todas as indulgências possíveis. Quando suas doenças a retinham no leito, recomendava aos sacerdotes e às pessoas que a iam visitar de ganhar muitas indulgências em favor das benditas almas.

Especial amor à virtude da obediência

Uma das virtudes que mais repugnam ao orgulho humano é a de renunciar à própria vontade para fazer a dos outros. Por isso, na vida religiosa, ela é objeto de um voto, segundo o conselho do Redentor: “Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo”. Maria Francisca despojou-se inteiramente da vontade própria, e vivia só da obediência. Quando lhe perguntavam qual a virtude que mais lhe agradava, dizia: “Todas as virtudes me agradam, mas a maior é a de não nos opormos nunca à vontade daqueles que têm o direito de mandar em nós”.6

Santa Maria Francisca tinha igualmente uma grande veneração pela Santa Igreja, por seus Mandamentos e suas máximas. E procurava inculcar essa devoção em todos que a rodeavam. Dizia: “Todo cristão é obrigado a crer e a obedecer cegamente a tudo o que a Santa Igreja ensina. E ninguém deve esquecer a obediência e submissão ao Sumo Pontífice”.7

Santa Maria Francisca era procurada por sacerdotes, religiosos e pessoas piedosas por seus sábios conselhos. Por isso, seu falecimento, ocorrido em 6 de outubro de 1791, foi um triunfo. Os inúmeros milagres alcançados por sua intercessão levou o papa Pio VII a declará-la venerável já em 1803. Mas sua canonização caberia ao imortal beato Pio IX, 64 anos depois.

E-mail para o autor: catolicismo@terra.com.br

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Notas:
1. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo XII, p. 107.
2. Pe. José Leite, S.J., Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1987, tomo III, p. 136.
3. Les Petits Bollandistes, op. cit. p. 111.
4. Cfr. Ferdinand Heckmann, St. Mary Frances of the Five Wounds of Jesus, The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition.
5. Les Petits Bollandistes, op. cit., p. 111.
6. Pe. José Leite, op. cit. p. 137.
7. Id., ib.

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